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Por ocasião da morte do colega ANTONIO JOSÉ
MACHADO DIAS afirmávamos que o assassinato brutal,
violento e sem precedentes de um magistrado - morto
simplesmente porque era um juiz - exigia uma reflexão
séria e equilibrada sobre o papel da magistratura
na nova ordem mundial, que tem o crime organizado como
uma realidade inevitável.
A tragédia, mais que provável, era anunciada.
Como também eram previsíveis as recentes
ações de uma facção criminosa
paulista.
Um breve olhar para o passado se faz necessário.
Em 1961, ao que consta, perdemos um colega assassinado
na comarca de Mirassol. Em 1996 vários colegas
nossos de Goiás foram feitos reféns em
um presídio goiano. Ameaças existem e
aumentam assustadoramente, sem que nada se faça
de concreto, com organização, eficiência
e planejamento. Depois, vieram os atentados aos fóruns,
bomba no João Mendes e assassinato de colegas.
E o que foi feito?
A sensação é a de que nem ao
menos estamos conscientes da gravidade da situação.
A indiferença toma conta. As reações
são mais voltadas à segurança pessoal
de que propriamente ao enfrentamento efetivo da realidade
que nos cerca, quando, em verdade, uma coisa não
exclui a outra.
Há tendência de transferir responsabilidades
que são de todos. O que se vê no âmbito
da política externa, com governantes acusando-se
mutuamente, buscando culpados e os poderes constituídos
em verdadeiro combate. Ninguém quer assumir responsabilidades.
E esse é o caminho inexorável da repetição
das tragédias anunciadas. Porque veremos políticos
e entidades da sociedade civil apresentando um sem número
de projetos e idéias que amanhã cairão
no esquecimento, atropelada por novos fatos sociais,
Copa do mundo e eleições.
O Poder Judiciário precisa atuar em duas frentes
bem identificadas. De um lado é preciso investir
em segurança interna; de outro, em atuação
firme junto aos demais poderes da República para
aperfeiçoamento da legislação e
do sistema de execução de pena que respeite
o Estado de Direito, mas não se perca em romantismo
teórico.
O que temos feito neste sentido? Nada. Absolutamente
nada de concreto. Agimos exatamente como a média
da sociedade, ao sabor dos acontecimentos.
O Juiz ADHERBAL DOS SANTOS ACQUATI foi um dos primeiros
magistrados a realmente se preocupar com o tema. Em
junho de 1996 ele conseguiu a formação
de uma comissão de estudo na APAMAGIS para cuidar
da segurança dos magistrados, cujo regimento
interno era o seguinte:
1 - A Comissão de Estudos sobre a Segurança
dos Magistrados, instituída em caráter
permanente pela Assembléia Geral da APAMAGIS,
tem por finalidade:
1.1 - Colaborar com os órgãos de cúpula
dos tribunais do Estado de São Paulo, no estudo
de providências que visem aprimorar a segurança
dos magistrados no exercício do cargo, apresentando
sugestões nesse intuito.
1.2 Realizar estudos e levantamentos que permitam melhor
visualizar as condições e o ambiente de
trabalho dos magistrados, no tocante à segurança
preventiva.
1.3 Criar e desenvolver arquivo histórico, para
registro e estudos dos casos concretos de ameaças
contra magistrados, por razões ligadas ao exercício
do cargo.
1.4 Tomar conhecimento e prestar assistência
aos magistrados ameaçados, sempre entendido por
razões ligadas ao exercício do cargo.
1.5 Manter contatos com as autoridades da Segurança
Pública, civis e militares, visando a adoção
de medidas de segurança necessárias ao
exercício do cargo, tanto de caráter preventivo,
quanto nos casos concretos de ameaças contra
magistrados.
1.6 Promover palestras e debates sobre questões
atinentes à segurança no exercício
do cargo.
1.7 Promover o que for necessário para a criação
de um Grupo de Magistrados Voluntários para apoio
ao magistrado ameaçado e respectiva família.
1.8 Manter a Diretoria e o Conselho Consultivo e Orientador
da APAMAGIS e os órgãos de cúpula
dos tribunais do Estado de São Paulo informados
dos estudos, bem como das providências adotadas
nos casos concretos e ameaças contra magistrados.
1.9 Assessorar a presidência da APAMAGIS no desenvolvimento
das providências que se revelarem necessárias,
nos casos concretos de ameaças contra magistrados,
bem como nos contatos com a imprensa.
1.10 Manter contatos com a Associação
dos Magistrados Brasileiros, com outras associações
de magistrados, com associações do Ministério
Público e outras entidades de caráter
público ou privado, visando o estudo de medidas
de aprimoramento da segurança para o exercício
dos cargos públicos.
2 - Ao tomar conhecimento de casos de ameaças
contra magistrados, a comissão manterá
contato com o magistrado ameaçado, oferecendo
apoio e orientação.
2.1 Se o magistrado atingido optar exclusivamente por
ações próprias e individuais, o
caso será apenas registrado, para fins de arquivo.
3. A consulta às informações do
arquivo e respectiva divulgação, somente
será permitida mediante autorização
expressa do presidente da APAMAGIS.
Atualmente temos outra Comissão na APAMAGIS,
para o mesmo fim. De lá para cá o tempo
passou - uma década - sem que nos mantivéssemos
unidos em torno do tema. Nada de concreto conseguimos
realizar. Portanto, não é hora de buscar
culpados, mas de encontrar soluções. As
propostas referidas servem com um bom começo,
ainda que tardio, para as ações internas
que, sem dúvida, precisam integrar o Tribunal
e a Associação num único contexto.
Externamente, cabe-nos assumir um papel ativo no contexto
social, elaborando as propostas legislativas necessárias
à reforma processual penal e de execução
penal, fiscalizando a administração penitenciária,
cobrando ações do executivo e denunciando
publicamente ações demagógicas
ou omissões que impeçam a implantação
de medidas de controle às novas formas de criminalidade
que atingem o País.
Basta de insegurança, é hora de ação!
JAYME MARTINS DE OLIVEIRA
NETO, Juiz Auxiliar da 13ª Vara da Fazenda
Pública da Capital, vice-presidente Instituto Paulista
de Magistrados - IPAM
e Diretor de Imprensa e Comunicação da APAMAGIS.
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